quarta-feira, 4 de maio de 2011

Acordar



Ontem, numa sala em tons de vermelho, mesmo no centro desta nossa cidade, uma lisboeta (re)aprendeu que se pode partir de algo que alguém já escreveu, pintou ou disse para se inspirar.
A escrita criativa pode se isso mesmo, aprender com o que se vive ou viveu, mas também com os outros. Escrever porque se aprendeu com alguém.

Aqui fica um poema que uma lisboeta gostava de ter escrito, porque reflecte exactamente o que sente e que a inspira muito.

Acordar
Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palácios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Num bar de esquina...





O Cockpit é um pequeno bar de esquina, na Av. Sacadura Cabral, daqueles em que o dono e os empregados já nos conhecem e nos dizem "olá, tudo bem!?" e ainda só lá fomos umas 4 ou 5 vezes.




É um bar em que se pode ficar cá fora, na pequena esplanada, num ambiente sossegado, como quem não quer a coisa, numa avenida lisboeta e acompanhar as cervejas e as excelentes caipirinhas com tremoços e amendoins.



Mesmo perto da janela onde o durmo, mesmo a 20 metros da porta onde agora entro e saio todos os dias, tenho um bar onde posso simplesmente sentar-me, beber um copo de vinho, estar na esplanada e pôr a conversa em dia.




E mesmo que já vá algo trôpega para casa - dado o adiantado da hora, apenas, ou da companhia que nos baralha com as ideias extraordinárias - basta seguir seguir em frente e estou, 2 minutos depois, já em casa!




É por isso que é bom viver num bairro lisboeta, cosmopolita, daqueles em que há mercearias, minimercados, lojas de brincos (giríssimos) e um bar (simples, normal) em que a companhia faz toda a diferença!



sexta-feira, 22 de abril de 2011

pequeno fiapo ao som de uma harmónica...



Acordar, ouvir a chuva a bater na janela, e ao mesmo tempo o som da infância: o amolador de facas, que arranja chapéus de chuva e tesouras.


Lembranças da infância, em que se entregavam as coisas lá de casa para arranjar, em que não se comprava tudo feito ou novo. Em que, em pleno 7.º andar na Avenida 5 de Outubro, se ouvia o som de uma harmónica, que pedia: dêem-me as vossas antigas peças quotidianas, de todos os dias, usadas, familiares, não as deitem fora, eu arranjo-as.


A nostalgia percorre as avenidas novas da grande capital, em especial percorre uma lisboeta que tem esta memória de há duas décadas... e que hoje, de repente, a recuperou com um simples som.


Num dia em que sabe que, algures, alguém gostava que houvesse um amolador que pudesse recuperar uma peça antiga, que a pudesse pôr de novo a funcionar, uma lisboeta senta-se em frente a um computador e recorda bons tempos, ou simplesmente antigos.


Desejando que para tudo na vida pudesse ouvir-se, ao longe, o som de um amolador, a quem se entregasse algo antigo que se quisesse recuperar, não perder e guardar para sempre.





quinta-feira, 21 de abril de 2011

Tolerância de ponto!




Manhã de "tolerância de ponto" e acordar, mesmo assim, quase à hora de ir trabalhar, ao som de uma Lisboa chuvosa.

Decidida a não ficar na preguiça e como o tempo não pede passeios, vai colmatar-se outra falha cultural: ver um filme!

Esta manhã escolheu-se o "Into The Wild", convencida que a inspiração viria acompanhada pela excelente banda sonora (do Eddie Vedder, claro!).

Mas desenganem-se os que ainda não o viram... não é filme para animar, não é filme para ver numa manhã chuvosa... se o objectivo for de animar!

Lá veio a lagriminha teimosa no fim (está a tornar-se um hábito!) e a sensação agri-doce de que se gostou, mas que custou muito a ver...

Ainda sem saber o quanto se gostou, fica a frase mais bonita:

"A felicidade só é real quando partilhada".

(ps. acrescenta-se que o filme foi visto sozinha... daí a lagriminha, quiçá??)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Fim-de-semana à sacana sem lei!



Mais uma pérola que estava em falta no meu CV!

Depois de um dia passado entre o ioga e a praia de S. João (ligeiramente quente demais e que deu direito a um belo "escaldão"!), e após umas manobras fantásticas de mudar de condutora em plena fila de trânsito (será legal?), passaram-se as horas seguintes a ver os "Sacanas sem lei"!


Não sem antes, ainda na praia, tentar beber coca-cola com tremoços e ter que pedir como favor especial, porque - como toda a gente sabe - "tremoços só com cerveja!"... óbvio! Agradeceu-se o favor especial, que remédio!!


Já em casa: só mesmo um filme à Tarantino para vencer o cansaço, as costas queimadas e as pernas doridas dos mergulhos em água gelada! Só mesmo o Brad Pitt e a sua maravilhosa pronúncia italiana! E o Cristoph Waltz, o nazi mais nazi de todos os tempos e mesmo assim o mais espectacular de todos!? Quase nem fechei os olhos nas partes das tripas!

Excelente!


Dia seguinte, o fim-de-semana "continuou calmo", com a temperatura a descer um pouco (nada parecido com o dia de inverno que está hoje!) e depois de se matar umas saudades bem merecidas, foi-se ao Bairro Alto, vazio num dia de domingo (cometer contra-ordenações e conduzir em sentido contrário!!) e beber mojitos e caipirinhas! Comer pipocas e cantar (baixinho) músicas jazz... Acabar a jantar num italiano e ainda chegar a casa a tempo de deitar cedo e repôr o sono!


Que excelente fim-de-semana!


Para o próximo fim-de-semana espera-se continuar a "fugir à lei"!?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Arranja-te é fim-de-semana!!





Acordar para mais uma sexta-feira em Lisboa!
Espera-se fim-de-semana preenchido:
Ioga (no Museu do Oriente, logo às 1o e meia ), seguido de praia (na Costa da Caparica, S. João), eventualmente cinema (talvez no King: "Road to Nowhere"), dança no Domingo (Roda de Choro, no Clube Lusitano) e passeio na memory lane (noite de pipocas e filmes da adolescência)!


Enquanto se procura a versão brasileira da "pequena sereia", aqui fica uma musiquinha da melhor banda de sempre (no mínimo!) para animar esta tarde de um dia que se espera continue soalheiro e ameno.

E continuando a fomentar o "karaoke" por esses locais de trabalhos fora (agora é singstar, certo?), aqui fica a letra (sem alguns yeahs, admito!)!

Cá vai, para toda a gente cantar!


When something's dark, let me shed a little light on it


If something's cold, I want to put a little fire on it


If something's old, I want to put a little shine on it


If something's gone, I want to fight to get it back again


When something's broke, I want to put a little fixin' on it


If something's bored, I want to put a little exciting on it


When something's low, I want to put a little high on it


If something's lost, I want to fight to get it back again


When signals cross, I want to put a little straight on it


If there's no love, I want to try to love again


I'll say your prayers, I'll take your side


I'll find us a way to make light


I'll dig your grave, we'll dance and sing


What's saved could be one last lifetime


Yeah, yeah, yeah, yeah, fight to get it back again


Yeah, yeah, hey, yeah, yeah, fight to get it back again


Yeah, yeah, yeah, fight to get it back again

quinta-feira, 14 de abril de 2011

ZECA SEMPRE O que faz falta teledisco



Em tempos em que não se fala de nada mais, em que todos temos (não só o credo) mas a crise na boca, o que faz é animar a malta!


A tarde pede que cantemos, que não nos deixemos derreter no calor abrasador dos nossos trabalhos (e atalhos) ... que chutemos o mau humor que traz esta crise (sem a esquecer, é certo)!


Numa esplanada lisboeta, já se bebeu uma cervejinha (péssima para o ânimo, pois pede mais a sesta!), mas cantemos qual Zeca e seus nostálgicos: há que animar a malta, vá lá!!


Aqui fica a letra, para cantar estilo karaoke (e porque não, mesmo no meio dos colegas?!)


Quando a corja topa da janela

O que faz falta

Quando o pão que comes sabe a merda

O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta

O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta

O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida

O que faz falta

Quando a raiva nunca foi vencida

O que faz falta

O que faz falta é animar a malta

O que faz falta

O que faz falta é acordar a malta

O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância

O que faz falta

Quando sabes que vai haver dança

O que faz falta

O que faz falta é animar a malta

O que faz falta

O que faz falta é empurrar a malta

O que faz falta

Quando um cão te morde uma canela

O que faz falta

Quando a esquina há sempre uma cabeça

O que faz falta

O que faz falta é animar a malta

O que faz falta

O que faz falta é empurrar a malta

O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta

O que faz falta

Quando dizem que isto é tudo treta

O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta

O que faz falta

O que faz falta é libertar a malta

O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas

O que faz falta

Se o fascista conspira na sombra

O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta

O que faz falta

O que faz falta dar poder à malta

O que faz falta